Prece do Cavalo
Ouve, atende tu que és meu dono,
quando te imploro:
Dá-me que comer e dá-me que beber,
trata-me com carinho ao terminar o
trabalho diário que me exiges;
proporciona-me um bom alojamento,
cama limpa e sêca, baia larga e espaçosa,
para que eu possa me deitar com comodidade.
Fala comigo.
Tua voz me indicará melhor
o que devo fazer, do que
o teu chicote ou as tuas esporas.
Acaricia-me às vezes senão muitas,
que desse jeito te servirei
com mais alegria e muito mais saberei te amar.
Não puxes inutilmente pelas rédeas,
não me castigues ao subir uma ladeira,
não me obrigues a sofrer
pesos superiores às minhas forças.
Não me castigues jamais quando
te não tenha compreendido;
procura sempre fazer-me
compreender o que de mim queres.
0lha-me com atenção tôdas as vezes
que eu deixar de fazer o que me ordenas;
vê se há alguma cousa que não me convenha
ou me ofenda nos arreios ou nas minhas patas.
Quando vires que evito comer
ou resisto ao bom governo,
examina os meus dentes e as minhas barras,
talvez seja um dente dolorido
ou a existência de ferimentos nas barras.
Não tenhas presa a minha cabeça em posição forçada,
de modo que me prive de deitar,
nem me prives da minha defesa
contra as moscas e mosquitos
aparando—me exageradamente a cauda
e os pelos dos esporões e das quartelas.
Enfim, peço-te me livres do mormo e das esponjas.
Quando se esgotarem as minhas fôrças
para o serviço não me separes de ti
para que eu não morra de fome ou de frio;
não me vendas a um dono cruel
que me vá torturar pela fome
e pelo trabalho que eu não posso mais dar.
Tira-me antes a vida
por meios mais brandos e menos dolorosos.
O teu Deus há de recompensar-te
pela caridade com que tratas
um ser inferior que também
nasceu numa
domingo, 29 de maio de 2011
PRECE DO CAVALO
| Prece do Cavalo | |
Ao meu amo, ofereço a minha oração: Da-me comida e cuida de mim, e quando a jornada terminar; Dá-me abrigo, uma cama limpa e seca e uma baia ampla para descansar em conforto. Fala comigo, tua voz muitas vezes significa para mim o mesmo que as rédeas. Afaga-me às vezes, para que te possa servir com mais alegria e aprenda te amar. Não maltratas minha boca com o freio e não me faças correr ou subir um morro. Nunca, eu te suplico, me agridas ou me espanques quando não entender o que queres de mim, mas dá-me uma oportunidade de te compreender. E, quando não for obediente ao teu comando, vê se algo não está correto nos meus arreios, ou maltratando meus pés. E, finalmente, quando a minha utilidade se acabar, não me deixes morrer de frio ou à míngua nem me vendas para alguém cruel para morrer lentamente torturado ou morrer de fome. Mas bondosamente, meu amo, sacrifica-me tu mesmo e teu Deus te recompensáreis para sempre. Não me julgues irreverente se te peço isto, em nome D'Aquele que também nasceu num estábulo! |
segunda-feira, 23 de maio de 2011
OUTONO
Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente.
Dalai Lama
OUTONO
CANÇÃO DE OUTONO
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão.
CECILIA MEIRELES
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão.
CECILIA MEIRELES
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